
Não sei se você sabe, mas eu tinha 15 aninhos e estava na primeira série do ensino médio quando ouvi falar de Carl Gustav Jung pela primeira vez na minha vida. Freud sempre foi pop e, mesmo sem saber direito, todo mundo sempre soube dele. Mas Jung na década de 1970? Só para os fortes. E não é a mim que refiro quando digo “só para os fortes”, mas sim para a pessoa que me contou sobre ele.
Era uma aula de literatura no Otoniel Mota, nós liamos Memórias Póstumas de Brás Cubas, ou seria Dom Casmurro? Bom, é no livro do Machado que tem um capítulo chamado o sotão ou coisa parecida, ah sim, a razão e a sandice, o google me disse. Nesta aula, a professora de cabelos loiros, platinados, amarrados cuidadosamente num coque no quase alto da cabeça que lhe dava uma aparência de diva clássica de filme do Hitchcock, explicou sobre o simbolismo do sotão como um lugar em que o personagem de machado guardava e vasculhava por suas lembranças. Disse mais, disse que um famoso psicólogo havia postulado que existiria, além do nosso individual, um inconsciente que pertencia a todos da espécie humana, que era comum a todos, um inconsciente coletivo. Já com a boca aberta e embasbacado de tanta viagem por mares nunca dantes navegados (por mim), ainda ouvi a imagem simbólica que ela fez para que pudessemos entender.
Ela disse, É como se fossemos bóias num mar, cada indivíduo é uma bóia, fora da água, somos individuos separados, mas na parte dentro da agua, estamos todos conectados e compartilhamos o mesmo mar inconsciente.
Há quarenta e três anos atrás eu formei esta imagem na minha cabeça e até hoje, se você me disser qualquer coisa que me lembre do inconsciente coletivo, eu vejo as boinhas, com uma parte do lado de fora e outra do lado de dentro da água, num esquema de corte igual vemos nas figuras que explicam quanto do iceberg está para fora da água.
Se ter tido esta professora brava, séria, que odiava fichinhas com as caracteristicas físicas e psicológicas das personagens que a gente copiava de algum lugar, esta professora que me ensinou que ser diferentão e barroco era o canal, desde que eu fosse diferentão e barroco, se ter tido alguém assim na minha vida não foi uma das coisas mais importantes que eu aprendi na escola, para fora dela, eu não sei o que são coisas importantes na vida, e no viver a vida.
Ontem ela se foi. E o primeiro que disser que o céu está em festa eu vou dar na cara! Foda-se o céu e sua festa. Eu aqui estou triste. Muito triste.
para Bete Kefalás Troncon
