
Hoje acordei e levei um spoiler as seis da manhã. E fiquei pensando na falta de espaço que existe entre o que sou eu e o que é o outro, hoje em dia. Apesar de odiar, eu acredito no spoiler terrorista, no spoiler blackboc anarquista que diz o que diz para ferrar com todos e com o mundo organizado burguês das séries. Mas nao tenho nenhuma simpatia pra spoiler exercício de poder. Spoiler do tipo eu já vi e vou dizer pra vc pq foda-se se vc ainda não viu. O espaço que existe entre nós, na verdade, tornou-se muito confuso com a chegada do virtual e, por isso, nao sabemos mais o q pensamos, a nao ser que o q pensamos seja publicado, expresso aos quatro cantos. Assim, quando lemos os comentários, temos uma vaga idéia, pela visão outro, de quem somos. Pq não existe mais tempo pra a pausa, para a reflexão sobre o q sentimos e os motivos. Apenas existe a página em branco da manchete diária do jornal virtual que espera pela minha frase bombástica sobre como estou me sentindo. E se o que eu estou sentindo nem eu sei, pq preciso do outro e de sua reação para saber, como poderei saber o que eu causo no outro no microespaço do cotidiano. No espaço das pequenas verdades diárias. Só o eu existe no mar de outros em que eu me banho todo dia. Não é que narciso ache feio, é que narciso nem sabe mais que existe algo além de espelhos.
Hoje eu acordei de sonhos menos intranquilos, sonhos em que enchia os pneus de meu carro enquanto descobria maravilhado que ao colocar a mangueirinha no bico de encher, aparecia um numero digital na borracha do pneu indicando quanto estava a pressão e quando chegava no valor que eu queria. Enquanto fazia isso, um dos meus ex-amigos se abaixou pra me ajudar e disse, Você é muito forte! Muito forte! E eu fiquei feliz de escutar isso e quase o perdoei pelas idiotices do passado.
Qual é o limite entre eu e você? Entre nós e outros? Pensar em grandes termos é fácil, repetir discursos de grandes utopias é fácil. Mas e o nosso microfascismo do cotidiano, onde fica? Como perceber? Como tratar? Como lidar com a parte nossa que impõe ao outro nossas microverdades autoritárias? Como lidar com aquela pessoa que interfere no seu trabalho microscopicamente, não por mal, mas pq o trabalho dela é macroscopicamente mais importante que o seu, pra ela. Como lidar, no cotidiano, com os microataques fascistas de microcertezas a bombardear nosso viver o tempo todo? Como lutar contra aquilo que discordamos facilmente em larga escala, o fascismo, o autoritarismo, a anulação do outro como alguém legítimo, quando isso se apresenta em nós e para nós, em nossas moléculas, em nanoatos banais que passam despercebidos justo por isso, por serem banais? Lutar pelos ideais democraticos coletivos é sempre razoavelmente facil. Difícil é conseguir pensar no outro e não dar spoiler de GoT.








